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Desafios para o nutricionista e portadores da doença celíaca

25/05/2021
fonte - ANDF
Desafios para o nutricionista e portadores da doença celíaca

Por Priscila Almeida  - Nutricionista Conselheira ANDF

Maio, mês da conscientização sobre a doença celíaca, nos chama a atenção para a importância do nutricionista conhecer bem as características e repercussão desta doença, visto o comprometimento do estado nutricional que ela desencadeia e a alimentação do indivíduo, que muitas vezes é restrita, pouco diversificada e cara. Se o celíaco não for bem orientado, a alimentação pode ser ainda deficiente em alguns nutrientes, com alto índice glicêmico, e até mesmo prejudicial, como em casos de contaminação cruzada.

Por esse motivo, destacamos alguns pontos importantes, entre eles sinais e sintomas da doença e algumas dificuldades enfrentadas.

A Doença celíaca (DC) é uma enteropatia imunomediada, cuja reação inflamatória é desencadeada pelo glúten, proteína contida em cereais como cevada, centeio, trigo e malte, em indivíduos geneticamente predispostos (FALCOMER et. al, 2020, SILVA e FURLANETTTO, 2010).

Antigamente, a doença celíaca era considerada rara. Atualmente, estima-se que afeta 1% da população mundial. Dentre as possibilidades para essa prevalência estão a mudança no padrão alimentar e os fatores genéticos, porém, esse índice poderia ser ainda maior visto a complexidade da doença, que pode ser confundida com outras, ou mesmo por existirem pessoas assintomáticas (CATASSI, GATTI, e LIONETTI, 2015, SILVA e FURLANETTTO, 2010).

As manifestações clínicas da doença celíaca são diversas, podem ser gastrointestinais ou mesmo extraintestinais. Na forma clássica, o indivíduo pode apresentar má absorção intestinal sintomática e pode ocorrer diarreia crônica, dor abdominal, distensão abdominal, perda de peso e flatos. A forma atípica é a apresentação mais comum da DC, caracterizada pela ausência de sintomas ou poucos sintomas gastrointestinais, presença de sintomas atípicos como anemia pela deficiência de ferro, osteoporose ou osteopenia, infertilidade, baixa estatura etc. Na forma silenciosa o diagnóstico é ocasional, em indivíduos assintomáticos que realizam os exames. Há também a forma latente e forma refratária (SILVA e FURLANETTTO, 2010).

A única terapia segura e eficaz é a dieta sem glúten. No entanto, ela representa um desafio para o indivíduo celíaco, para seus médicos no tratamento (BARADA et. al, 2012) e também um problema de saúde mundial com desafios dietéticos, sociais e econômicos (FALCOMER et. al, 2020).  As políticas relacionadas às refeições sem glúten e certificação de segurança alimentar, o apoio a serviços de saúde e incentivos financeiros precisam ser melhoradas para garantir o tratamento correto do celíaco e reduzir o ônus financeiro para pacientes celíacos e governos, uma vez que há complicações de saúde que podem ocorrer quando o tratamento é afetado negativamente (FALCOMER et. al, 2020). 

Amidos e farinhas de arroz, milho e batata com menor teor de micronutrientes, proteína, fibra dietética e alto índice glicêmico tendem a ser usados ​​para produzir produtos sem glúten e terem uma boa aceitabilidade. O pão é um dos alimentos mais consumidos no Brasil e sua versão sem glúten apresenta diferentes ingredientes. Dependendo da formulação, tendem a apresentar alto índice glicêmico, como foi observado em alguns pães sem glúten comercializados no Brasil (ROMÃO et. al, 2021, ROMÃO et. al, 2020).

O alto custo de alimentos sem glúten e sem contaminação cruzada também são obstáculos na adesão ao tratamento (FALCOMER et. al, 2020). A alimentação mais restrita em variedade e as poucas opções de locais seguros para os celíacos impactam em toda a família (RUSSO et. al, 2020). Neste sentido, desenvolver e aprimorar as habilidades culinárias pode ajudar nos obstáculos enfrentados (Ha¨user et al. 2007).


Referências

BARADA, K. et al. Celiac Disease in the Developing World. Gastrointest Endoscopy Clin N Am, v. 22, p. 773–796, 2012.

CATASSI, C.; GATTI, S.; LIONETTI, E. World perspective and celiac disease epidemiology. Digestive Diseases, v. 33, n. 2, p. 141–146, 2015.

FALCOMER, A L., LUCHINE, B. A., GADELHA, H. R., SZELMENCZI, J. R., NAKANO, E. Y., FARAGE, P. ZANDONADI, R. P.. Worldwide public policies for celiac disease: are patients well assisted?. International Journal of Public Health, v. 65, p. 937-945, 2020.

HA¨USER, W., STALLMACH, A., CASPARY, W.F., STEIN, J. Predictors of reduced health-related quality of life in adults with coeliac disease. Aliment Pharmacol Ther 25:569–578, 2007.  https://doi.org/10. 1111/j.1365-2036.2006.03227.x

LIMA, B. R., & BOTELHO, R. B. A., ALENCAR, E. R.,  NUNES DA SILVA, V.. S., PACHECO, M. T.,  ZANDONADI, R. P. Chemical Composition and Glycemic Index of Gluten-Free Bread Commercialized in Brazil. Nutrients. 12. 2234, 2020.

ROMÃO, B.; FALCOMER, A.L.;  PALOS, G.; CAVALCANTE, S.; BOTELHO,  R.B.A.; NAKANO, E.Y.; RAPOSO, A.;  SHAKEEL, F.; ALSHEHRI, S.; MAHDI,  W.A.; et al. Glycemic Index of Gluten-Free Bread and Their Main  Ingredients: A Systematic Review  and Meta-Analysis. Foods 2021, 10, 506. https://doi.org/10.3390/foods10030506

RUSSO, C., WOLF, R. L., LEICHTER, H. J., LEE, A. R., REILLY, N. R., ZYLBERT, P., GREEN, P. H. R., LEBWOHL, B..   Impact of a Child’s Celiac Disease Diagnosis and Management on the Family. Dig Dis Sci 65, 2959–2969 (2020). https://doi.org/10.1007/s10620-020-06316-0.

SILVA, T. S. G.; FURLANETTO, T. W. Diagnóstico de doença celíaca em adultos. Rev. Assoc. Med. Bras., São Paulo, v. 56, n. 1, p. 122-126, 2010.